1. Introdução

Bem-vindo(a) a este curso experimental de aprendizagem da língua portuguesa da Universidade de Varsóvia. Durante as próximas semanas, vais participar de um programa especial que te põe a escrever ficção interativa, e a usá-la como ferramenta e método para aprofundares o teu conhecimento da língua portuguesa. Vais escrever uma novela policial interativa em português, permitindo que:

  • alargues o teu vocabulário e não te esqueças tão facilmente das palavras novas;
  • conheças melhor como funciona a gramática da língua portuguesa;
  • te sintas mais à vontade quando escreves em português;
  • aprendas uma nova forma de escrita, a escrita de histórias interativas.

Há um longo e maravilhoso caminho à tua espera por entre os meandros e os fios da escrita interativa em língua portuguesa.

1.1. O que é a ficção interativa?

A Ficção Interativa (FI) pode ser entendida como um cruzamento entre a literatura e um videojogo. Costuma considerar-se como primeira obra de FI o trabalho “Adventure”, do programador norte-americano Will Crowther, desenvolvido provavelmente durante o ano de 1975. Nesta altura, Will Crowther estava a passar um momento difícil na sua vida, depois de ele e a mulher se terem divorciado. As filhas do casal ficaram com a mãe, e Will decidiu criar um jogo para as filhas, para poderem passar tempos juntos, um jogo que juntava três dos seus interesses principais na altura: a programação, a exploração de grutas e os jogos de tabuleiro do universo fantástico das Masmorras e Dragões (Dungeons and Dragons). Sem o saber, apenas com o intuito de querer estar com as suas filhas, Will Crowther iria criar o arquitexto da ficção interativa. Que forma tão bonita de começar um género literário, não achas?

Atualmente, o termo Ficção Interativa é uma designação genérica para várias formas de escrita interativa, que podem também ser chamadas de “aventuras textuais”, “aventuras de texto”, “jogos de aventura”, “aventuras conversacionais”, “ficção hipertextual”, entre outros.  Na realidade, “ficção hipertextual” é o termo mais exato para definir o trabalho que iremos desenvolver, mas, neste momento, não nos vamos deter nesta questão, e podes encará-los a todos como sinónimos. Mais tarde no nosso programa, vamos voltar a este assunto e compreender algumas das diferenças existentes.

A FI é feita de palavras, como um texto em prosa ou poesia; como estes textos, também precisa de um leitor que a leia e interprete, mas, além disso, precisa também de alguém que a jogue, que faça escolhas para que a narração avance, e que descubra a história ou as várias histórias que ela contém. É por isso que se diz que a FI é um “sistema que produz uma narrativa durante a interação” (Montfort, N. (2011) “Toward a Theory of Interactive Fiction”).

Talvez pudessem dizer que esta definição de FI também se pode aplicar a uma obra em papel, não interativa, se pensarmos no ato interpretativo. Os conceitos de “interpretação” e “interação” dão uma ótima discussão à qual iremos regressar mais à frente. Por agora, olhem para estes exemplos para perceberem algumas das diferenças entre a ficção não-interativa e a ficção interativa:

  • o leitor/jogador é uma personagem da história (normalmente o protagonista);
  • o leitor/jogador pode alterar a progressão da história através de escolhas (ramificações narrativas);
  • o texto pode apresentar aleatoriedade (textual / narrativa);
  • o texto costuma apresentar enigmas/puzzles que têm de ser resolvidos para a ação poder progredir;
  • a apresentação do texto pode ser feita através de animações.

1.1.2. Sobre o Twine

A nossa ferramenta de escrita de FI vai ser o Twine (nome que em português se poderia traduzir por “cordel”). O Twine é um programa de código-fonte aberto para contar histórias interativas e não-lineares e foi criado pelo norte-americano Chris Klimas. Costuma inserir-se o Twine no grupo da ficção hipertextual.

A primeira versão foi lançada em 2009, e o programa tem vindo a crescer desde então, graças a uma  comunidade crescente de colaboradores (escritores, leitores, programadores, entre outros) que o foram utilizando e melhorando. Atualmente, a versão mais recente é a 2.1.0, lançada no início de 2017.

O sucesso do Twine deve-se fundamentalmente à facilidade de utillização do programa por pessoas sem conhecimento de programação, e permitiu um novo ressurgimento do género da ficção interativa. Com o Twine, é possível começar a escrever uma história em menos de 10 segundos: não é preciso saber programar, não é preciso instalar nenhum programa. Basta ir ao site https://twinery.org/ e começar. E é mesmo isso que vamos já começar.

1.2. Porquê o género policial?

O género policial adequa-se muito bem à escrita interativa, por ser um género que nos apresenta um mistério que necessita de ser resolvido. Se ler um novela policial e seguir as ações do detetive já é emocionante, imaginem o que é poder ser esse detetive e sermos nós a resolver o mistério. Ou ainda mais excitante, é podermos ser nós a criar essa novela para que outros tentem resolver o mistério que construímos.

Edgar Alan Poe explicou bem em que consiste a escrita deste género de histórias, que exige imaginação, capacidade artística e um raciocínio apurado. Se fazer isto na nossa língua materna já é uma ótima ginástica mental e linguística, imaginem o proveito que este exercício criativo pode trazer ao vosso domínio da língua portuguesa.

“Por um lado, é uma obra da imaginação, que nos exige recorrer à faculdade artística e criadora; por outro, é uma obra de raciocínio, que exige poder de análise lógico e de um raciocínio agudo e subtil.”

(Edgar Alan Poe)

O género policial é também um género literário bem conhecido por todos, portanto, há um conhecimento teórico internalizado sobre as regras que regem este género. De qualquer forma, vale sempre a pena relembrar o texto seminal de Van Dime, publicado em 1928 no The American Magazine, em que este definiu as 20 regras às quais deveriam obedecer as histórias policiais.

Algumas delas são:

  1. O leitor e o detetive devem ter iguais oportunidades para resolver o problema. Todos os indícios devem ser claramente enunciados e descritos
  1. O autor não deve empregar para com o leitor nenhum truque ou astúcia que não sejam os que o criminoso emprega contra o detetive.
  1. Não deve haver enredo amoroso. A inclusão de amor só irá atravancar de sentimento irrelevante aquilo que é pura experiência intelectual. O objetivo é levar um criminoso ao tribunal e não um casal ao altar.

Podem lê-las todas aqui nesta página. Vale bem a pena. E lembrem-se de que as regras são feitas para serem quebradas, especialmente na escrita criativa 😉

Por fim, se precisarem ainda de mais alguma motivação para começarem a escrever, lembrem-se do que disse Fernando Pessoa sobre os romances policiais:

“um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais” (Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação (s/d), p. 62)

Quem diz “ler”, também diz “escrever”, não é :)? Bem, estás pronto? Então, vamos a isto.

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