0. índice

  1. Introdução
  2. Sobre as histórias interativas
  3. Sobre os mundos imaginários
  4. Recomendações de obras de ficção interativa

1. Introdução

Agora que já aprendeste algumas das técnicas do Twine estás pronta/o para começar a (re)criar as tuas próprias histórias e os teus próprios mundos. A partir de agora, podes começar a pensar numa obra interativa só tua, com um mundo e uma história que tu consideres fascinante.

Vou pedir-te que comeces a pensar no mundo imaginário que queres construir e nas histórias que ele poderá oferecer aos jogadores que o irão explorar. Uso aqui o termo “mundo imaginário”, mas não te sintas obrigada/o a pensar apenas num mundo fantástico ou maravilhoso. Ele pode muito bem ser um mundo realista, dos nossos tempos, da tua própria cultura, só que irá ser imaginado por ti, portanto, continuará a ser um mundo imaginário. Conta, para isso, com a ajuda dos teus colegas, do professor e dos livros, claro está.

E aqui vai já uma primeira ajuda, que te relembra do poder do “material” que vais usar para construir esses mundos:

(não te esqueças de ligar as legendas em português)

2. sobre as Histórias interativas

Há vários géneros de obras interativas. Um deles é o que privilegia a exploração e a história. Nestas, o jogador torna-se num explorador de um novo mundo, que vai desbravando e descobrindo passagem a passagem. É uma maneira cativante e eficaz de contar uma história em ficção interativa, e tecnicamente muito acessível (aquilo que já aprendeste é suficiente para a escrever). E a história tanto pode ser uma aventura, como ser apenas uma forma de turismo digital num mundo imaginário.

Costuma chamar-se a esta abordagem narrativa, em inglês, environmental storytelling, que talvez possamos traduzir, para português, por narrativas de ambiente — obras onde é o espaço, o ambiente que vamos explorando, que nos vai revelando a história.

Mas há muitas outras formas de se contar uma história de ficção interativa. Se te lembras do esquema de Aaron Reed, sabes que um jogo de ficção interativa tradicional costuma reunir três componentes: exploração, história e enigmas.

Triângulo FI tradicional

No entanto, como diz Aaron Reed, conjugar os três elementos é um empreendimento extremamente complexo até para um autor experiente.

Uma forma de tornar a tarefa mais acessível e prazenteira é concentramo-nos mais em dois vértices do triângulo e menos no outro. E dessa combinação, podem resultar várias formas narrativas diferentes, das quais refiro apenas três:

EXPLORAÇÃO & HISTÓRIA
narrativas de ambiente (explicadas já acima).

EXPLORAÇÃO & ENIGMAS
narrativas em que o objetivo é, por exemplo, sair de um sítio onde se está preso, um pouco como os desafios dos atuais "escape rooms".

HISTÓRIA & ENIGMAS
narrativas-puzzle em que a história está desorganizada ou oculta, e é através da resolução de enigmas que a história se vai revelando e "ficando no lugar". Um pouco como uma narrativa policial.

Em termos de domínio do Twine, o conhecimento técnico que já tens permite-te construir, com facilidade, uma narrativa de ambiente. É claro que há outras técnicas do Twine que ainda podes aprender para tornares uma obra mais interativa, mas elas não são indispensáveis para este género. No entanto, as histórias que envolvem enigmas exigem alguns conhecimentos técnicos adicionais para poderes pôr o jogador a interagir com o mundo em que está, por exemplo:

» abrir e fechar portas (dificuldade baixa)
» apanhar e usar objetos — por exemplo, uma lanterna para ver no escuro (dificuldade moderada)
» combater criaturas fantásticas (dificuldade elevada)

Mas, como já disse, a parte técnica não é relevante. O mais importante nesta fase é escolheres o espaço e o tempo em que vais assentar o teu mundo e a tua história. Acima de tudo, deve ser um local onde tu própria/o vais querer estar, porque vais lá passar uma boa parte do teu tempo, portanto, mais vale escolheres algo que te dê prazer.

3. sobre os mundos imaginários

Para te ajudar, deixa-me dar-te algumas ideias que roubei ao Dicionário de Lugares Imaginários, do Alberto Manguel e do Gianni Guadalupi. Mas lembra-te de que são apenas sugestões, a escolha final é sempre tua.

Comecemos, primeiro, com esta 1.ª sugestão:

Ilha da Fortuna

Repara como esta sugestiva descrição nos abre a imaginação e nos põe imediatamente a fazer perguntas:

  • Porque é que a costa é desabitada?
  • Que cultivam os habitantes?
  • Que artes preferem?
  • Interessam-se por ciência, mas adoram o Sol?!?
  • Se se interessam por arte, deveriam ser sensíveis à diferença e às imperfeições, no entanto, têm comportamentos bárbaros e queimam pessoas…
  • E se eu contasse a minha história do ponto de vista de um desses “artistas ateus”?

Se, em alguns casos, é uma descrição assim que põe logo a nossa imaginação a trabalhar e em viagem, outros casos há em que isso pode ser provocado pela cartografia do local imaginário, como se fosse o mapa do tesouro.

A seguinte galeria de descrições e mapas é apenas um punhado de exemplos retirados das mais de 1000 páginas e 1200 lugares da obra de Manguel e Guadalupi, que talvez te possam inspirar. E lembra-te que desse livro não constam esses lugares que estão guardados na tua imaginação.

Votos de boas ideias e até à próxima aula, onde as iremos começar discutir e esculpir.

4. algumas obras de ficção interativa

Gostarias de ler e jogar algumas obras de ficção interativa para teres uma ideia melhor acerca desta forma de literatura digital? Aqui te deixo alguns exemplos em língua portuguesa:

uivam os Cães (howling dogs)
de Porpentine

(traduzido para português por J. C. Dias)
[versão original em inglês]

Uma das obras de hiperficção mais importantes da atualidade. O protagonista acorda numa cela (de uma prisão? de um hospital? de uma nave espacial?) e experimenta várias sessões de realidade virtual, onde o mundo em volta e a vida pessoal do protagonista se vão revelando. Há dois finais possíveis.

Género: Ficção científica ao estilo de Lem (mais filosófica)
Vértices interativos: História (muito) + Exploração (pouco) + Puzzles (nada)
Nível de língua: Muito exigente C1/C2
Tempo de jogo/leitura: 2 horas


Montanhas (capítulo I)
de J. C. Dias

Um ornitólogo amador decide-se finalmente a usar as suas férias para cumprir o seu sonho de fazer um livro sobre as aves da sua região. Será que vai conseguir?

Género: Passeio digital
Vértices interativos: História (algo) + Exploração (muito) + Puzzles (pouco)
Nível de língua: Exigente C1
Tempo de jogo/leitura: 20 minutos


Quebra-Nozes
de Katarzyna Sakowska e Sylwia Wojsa

Este jogo foi publicado na base de dados mundial de ficção interativa e recebeu uma crítica muito boa!

Lisboa, setembro de 2016. Já passaram os melhores dias, aqueles cheios do sol da cidade da luz. As massas de turistas já abandonaram a capital. Os estudantes voltaram aos bancos, os lisboetas voltaram das férias no Algarve. Tudo parece estar tranquilo. Pelo menos, para o detetive Jogador. Como sempre, foi chamado a mais um lugar onde foi cometido um crime. Este caso parece ser simples, parece ser um suicídio. Mas o que no início parece ser banal, depois torna-se mais e mais complicado. Será que Jogador, um dos melhores detetives da praça, conseguirá lidar com este caso tão específico? “All the world’s a stage”, dizia Shakespeare. Nunca, como agora, estas palavras fizeram tanto sentido. Joga e vê se consegues ajudar o detetive a resolver este enigma! Ele conta contigo!

Género: Comédia policial
Vértices interativos: História (muito) + Exploração (algo) + Puzzles (nada)
Nível de língua: Exigente C1
Tempo de jogo/leitura: 2 horas


Pepino em Conserva
de Anna Kozłowska

Um funcionário da milícia de uma pequena cidade do interior da Polónia é chamado para investigar a estranha morte de uma prostituta russa. Sem hesitação, e acompanhado do teu fiel Polonez, enfrentas um dos piores invernos de de que há memória para atravessar os 20 graus abaixo de zero que te separam da casa da vítima. Quando lá chegas, percebes que a palavra “estranho” não é suficiente para descrever o que se passou naquela casa.

Género: Policial duro
Vértices interativos: História (muito) + Exploração (algo) + Puzzles (nada)
Nível de língua: Exigente B2/C1
Tempo de jogo/leitura: 1 hora


Outros títulos:

Nesta página, encontras outras histórias em português escritas por estudantes em anos anteriores.

Tens ainda a base de dados de ficção interativa (IFDB), que é o maior repositório de ficção interativa em todas as línguas, claro está, que o inglês é a dominante.